EXCLUSIVO: Para Buzzlightrans — nome artístico de Otávio Augusto — estilo nunca foi apenas estética. É um processo, uma travessia e, sobretudo, uma linguagem de autoexpressão e afirmação.
Criador de conteúdo, Otávio construiu sua presença pública a partir da rotina e das escolhas visuais que acompanham sua trajetória desde o início da transição. Ao longo dos anos, vestir deixou de ser um gesto automático para se tornar uma forma consciente de narrar quem ele é, quem foi e quem ainda está se tornando.

Essa fase de amadurecimento ganha novos contornos na parceria com a Monte Leste, marca de streetwear que dialoga diretamente com ocupação urbana, atitude e identidade. A colaboração é apresentada em um editorial exclusivo do BANDO.
buzzlightrans X Monte Leste: streetwear como expressão de identidade
1. Em que momento você percebeu que estilo também poderia ser uma forma de narrativa sobre quem você é?
Percebi isso no início da minha transição, em 2019. Antes, escolher roupa era quase automático — eu vestia o que “cabia”, não o que conversava comigo. Quando comecei a me enxergar como homem, percebi que meu corpo e minha expressão precisavam trabalhar juntos. A roupa deixou de ser um disfarce e virou linguagem. Foi ali que entendi que meu estilo podia contar minha história antes mesmo de eu abrir a boca.
2. Moda, pra você, é mais sobre pertencimento, afirmação ou liberdade? Ou essas coisas se misturam no seu processo criativo?
É uma mistura dos três e às vezes todos ao mesmo tempo.
No início, meu foco era pertencer: encontrar espaço no mundo masculino.
Depois virou afirmação: mostrar pras pessoas que eu não estava “brincando de ser homem”.
Hoje, sinto liberdade. Uso o que me representa, não porque preciso provar nada. Meu processo criativo é esse equilíbrio: vestir o que sou e quem estou me tornando.
3. Hoje muito se debate sobre autenticidade nas redes sociais. Em que medida o conteúdo que você produz hoje é uma extensão da sua vida e em que medida é uma escolha estratégica?
Meu conteúdo nasce da vida real. Sou um homem trans vivendo o dia a dia, errando e acertando. Mas também entendi que ser autêntico não significa postar tudo sem intenção. Tem estratégia, sim: no formato, na narrativa, no calendário. Mas o que eu digo na tela precisa ser verdade pra mim primeiro.
4. O que mudou na sua relação com o próprio corpo ao longo do tempo, e como isso impactou diretamente a forma como você se veste hoje?
Passei de um corpo que eu evitava olhar para um que eu aprendi a construir e respeitar. Antes eu comprava roupa “para esconder”.
Hoje escolho peças que acompanham minha silhueta, meus ombros, minha voz e visual. O streetwear entrou como um abraço: modelagens que dão segurança, que acompanham minha transição física e emocional.

5. A parceria com a Monte Leste nasce num momento específico da sua trajetória. O que esse encontro simboliza pra você além de uma ação de marca?
Representa reconhecimento e alinhamento de trajetórias. A Monte Leste trabalha com roupas pensadas pra quem ocupa a rua, vive a cidade e expressa atitude — e essa é exatamente a fase que estou. Não é só receber peça e fotografar. É vestir algo que conversa com a construção da minha identidade masculina e, ao mesmo tempo, com o lugar que quero ocupar como criador de conteúdo.
6. Como criador de conteúdo, o que diferencia, pra você, uma parceria que apenas usa a sua imagem de uma parceria que realmente conversa com o seu conteúdo?
A superficial usa meu rosto, a verdadeira usa minha voz. Quando uma marca entende minha história, minha estética e o impacto do que represento, eu deixo de ser “mais um influencer” e viro ponte. A Monte Leste fez isso: conectou minha vivência com o universo da marca.
7. Existe alguma peça, estética ou escolha visual que hoje você usa com mais segurança justamente por ter passado por um processo de autoconhecimento?
Com certeza! Modelagens largas, camisetas oversized, calças com estrutura e peças que desenham ombros. Antes eu evitava chamar atenção; hoje a estética streetwear amplifica quem sou.
8. Olhando para o que você constrói agora, que tipo de conteúdo você sente que ainda quer explorar e talvez ainda não teve espaço ou segurança para mostrar?
Quero trazer mais lifestyle além da transição: treinos, rotina, trabalho, coisas que me movem para além do “homem trans que conta sua história”. Quero mostrar camadas… a moda, sim, mas também humor, cultura, fragilidade e força.
9. Pensando especificamente na parceria com a Monte Leste, o que você acredita que ela revela sobre a fase que você vive hoje como criador?
Estou saindo do lugar de apenas buscar referências e entrando no momento de criar minha própria linguagem visual. É uma fase de chegada e, ao mesmo tempo, de início: estou me colocando no mundo com mais confiança e coerência.
10. Se alguém que está começando agora, tentando entender quem é e como quer se expressar, olhasse para sua trajetória, o que você gostaria que essa pessoa enxergasse além da estética?
Que nada disso aconteceu de um dia pro outro. Gostaria que essa pessoa visse coragem: a coragem de existir, de errar, de se reinventar e, principalmente, de ocupar espaços com dignidade e orgulho.





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